São Paulo ganha novo teatro com arquitetura pensada para a pandemia

Embora os teatros de São Paulo já estejam autorizados a funcionar, a maior parte deles segue fechada. Muitos ainda lutam para sobreviver em meio à crise, enquanto casas como o antigo Credicard Hall encerraram definitivamente as atividades. Mas a cidade está prestes a ganhar um novo endereço.

Na esvaziada avenida Faria Lima, que viu a crise vagar uma série de prédios de escritórios, um teatro para espetáculos e shows será inaugurado no próximo mês, já pensado para tempos pandêmicos.

Chamado Zoome Hall at teatro B32, o espaço conta com 500 assentos e fica dentro de um novo edifício comercial. Quem assina o projeto, que ao todo custou R$ 1,2 bilhão, é o arquiteto de ascendência chinesa Chien Chung Pei, filho de I. M. Pei, que morreu em 2019 e foi o responsável pelo projeto da pirâmide de vidro do Louvre, em Paris.

A princípio, o teatro seria mais um dos empreendimentos em São Paulo sem pressa para ser inaugurado por causa da crise. Mas, no ano passado, o empresário Ricardo Kurtz entrou no projeto com a ideia de tornar o espaço híbrido, equilibrado entre produções presenciais e lives. Kurtz é CEO e fundador da ZoOme.TV, plataforma de streaming responsável pelo gerenciamento do lugar.

Além das poltronas para receber o público, o auditório tem equipamentos para transmitir espetáculos e shows via internet e estrutura preparada para quando for instalada a rede 5G no Brasil.

As poltronas não são fixas e podem ser armazenadas no subsolo, o que facilita a reorganização na hora de garantir o distanciamento social entre os espectadores.

Mesmo assim, Kurtz conta que, para a inauguração, o local ainda não deve receber pessoas presencialmente. “É também por isso que os artistas tão topando fazer os shows, porque não vamos gerar nenhuma polêmica com o nome deles”, garante Kurtz. Por enquanto, toda a programação vai ser com lives, transmitidas do novo teatro.

Ele calcula que, caso o governo de São Paulo divulgue novas medidas de afrouxamento da quarentena no fim de maio, será possível pensar em programações ao vivo na segunda quinzena de junho.

Por enquanto, a inauguração no dia 4 de junho será feita com um show de Gusttavo Lima. Já no dia 11, é a vez da dupla Simone e Simaria.

Segundo Kurtz, chamar nomes de peso do sertanejo só foi possível graças ao modelo de apresentação por streaming, já que o teatro tem só 500 lugares. “Se fosse presencial, mesmo que a gente vendesse 500 ingressos por R$ 1.000, ainda não pagaria a conta”, ele afirma.

No modelo virtual, o show pode ser visto por milhares de pessoas, com ingressos a R$ 29,90. “Esse para mim é o futuro”, diz o administrador do espaço. “Vai ser o menor teatro a receber 50 mil pessoas.”

Mas sempre há o risco de que o público não esteja disposto a pagar para assistir a mais uma live. “É uma aposta, e a gente tem muitas estratégias para derrubar as objeções”, diz ele, adiantando que quem comprar ingressos vai concorrer a um Mercedes e a sorteios de R$ 5.000.

Além de ir na contramão de teatros paulistanos que permanecem fechados, o novo prédio também vai contrastar com a avenida Brigadeiro Faria Lima, que enfrenta uma espécie de desocupação em massa por causa de empresas que têm devolvido seus escritórios ao adotar o trabalho remoto.

Mas Kurtz parece confiante com o cenário e vê o vazio como uma espécie de trunfo. “O prédio aqui já está com uma comercialização de quase 80%, o que mostra que nosso ponto é desejado ‘no matter what’ [não importa o que], né?”, diz. “Acho que até facilita. Quanto menos trânsito, mais fácil de chegar aqui.”